Brasília, 20 de Maio de 2022 - 23:16

Guerra conectada

Nas últimas duas semanas, os meios de comunicação foram tomados pelo noticiário sobre a invasão da Rússia na Ucrânia. E, infelizmente, não poderia ser diferente. Mesmo quem procura evitar as notícias sobre a guerra e as imagens chocantes dos bombardeios e dos civis tentando escapar da tragédia, de uma forma ou de outra, em algum momento, é impactado.

Se no passado apenas a chamada mídia tradicional – TVs, rádio, jornais e revistas – veiculava as informações sobre uma guerra, hoje e em conflitos recentes as redes sociais ampliaram o acesso da opinião pública e fazem uma espécie de “cobertura paralela”, sem filtros. Desta vez, na Ucrânia, o protagonismo é da chinesa TikTok, cujos algoritmos permitem vídeos mais rápidos no celular do que os concorrentes.

Em entrevista ao PROPMARK, Leonardo Trevisan, professor de geopolítica da ESPM de São Paulo, lembra uma definição do jornalista norte-americano Thomas Friedman para situar a nova dimensão da comunicação num conflito armado. “Ele (Friedman) cunhou a expressão ‘guerra conectada’, o que me fez refletir sobre algo que eu já desconfiava: de que o poder de um celular agora é maior do que o de um tanque de guerra”.

O professor ressalta que a guerra na mídia eletrônica de massa não é algo novo, mas, com os apps, deixou de haver a restrição do conteúdo que chegava ao público. “Na TV tradicional, a imagem que chegava ao público ficava nas mãos do editor do telejornal. Agora, o conteúdo é livre, o impacto depende só da competência de quem está segurando o celular e da velocidade dos algoritmos do app que estiver usando”.

Na opinião do especialista, assim como na visão de vários analistas, as cenas fortes filmadas em celulares contribuíram para angariar um imenso apoio internacional à Ucrânia na guerra, resultando em diversas sanções de países à Rússia, bem como na pressão de grandes empresas, como McDonald’s, Coca-Cola e Pepsi, que anunciaram a suspensão temporária de suas atividades em solo russo.

Outro aspecto que chama a atenção dos analistas é a linguagem corporal utilizada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, que, sempre trajando camiseta, num visual fora dos padrões de líderes políticos, tem conseguido mobilizar a população (em especial os mais jovens) para resistir ao ataque russo por meio, principalmente, de lives divulgadas nas plataformas digitais.

O contraste com o seu opositor, o presidente russo, Vladimir Putin, é gritante. Putin passa a imagem de autoritário com seus ternos escuros e apertados e seu distanciamento simbolizado por uma desproporcionalmente comprida mesa de reuniões. Como os líderes autoritários tradicionais, ele prefere as aparições na TV, onde dá sua versão da guerra sempre com expressão dura e fria no rosto.

Não sabemos qual será o fim desta história, mas o que é possível afirmar é que as redes sociais têm desempenhado um importantíssimo papel para levar às pessoas uma visão mais transparente sobre um conflito que traz impactos humanitários irreparáveis, além das consequências econômicas que já estão sendo sentidas, inclusive, aqui no Brasil. Este, afinal, poderia ser um momento de alívio, já que o mundo, ao que tudo indica, caminha para o fim da pandemia da Covid-19.

O papel da comunicação na guerra entre Rússia e Ucrânia é tema de análise em matéria na edição desta semana do impresso e também em artigo escrito pelo articulista Stalimir Vieira, sob o título A propaganda na guerra.

*Armando Ferrentini é diretor-presidente e publisher do PROPMARK

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