O cancelamento do debate presidencial da TV Globo, na noite de quinta-feira, 1º de outubro, deixou um rombo comercial estimado em cerca de R$ 240 milhões e interrompeu, pela primeira vez na história recente da emissora, um confronto marcado para o horário nobre às vésperas do primeiro turno.
A informação sobre o prejuízo é do colunista Alessandro Lo-Bianco, do iG. A Globo não confirmou os valores. Os seis maiores cotistas teriam pago entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões cada para associar a marca à transmissão e à audiência prevista para o encontro, marcado para as 21h30, logo depois do Jornal Nacional, no lugar da novela, algo inédito na grade.
Com o cancelamento, a emissora ofereceu a transferência das inserções para os intervalos de “Quem Ama Cuida” e para outras atrações, inclusive até o fim da trama. A proposta foi recusada.
Na avaliação dos anunciantes, não há equivalência entre uma cota de debate presidencial e uma inserção convencional de novela, negociada na casa dos R$ 950 mil. As marcas teriam respondido que preferem o dinheiro em caixa a adiantar cerca de quatro meses de publicidade no canal.
O custo pode passar dos R$ 240 milhões. Os contratos preveem cláusulas de proteção para o não cumprimento da entrega comercial, e as empresas cobram também a multa, que pode chegar a 20% do valor de cada cota.
O argumento é que o cancelamento foi decisão da própria Globo e que não houve desistência das campanhas contratadas. Na prática, a emissora teria de devolver o que recebeu e ainda arcar com a penalidade pela não exibição no espaço, na data e nas condições originalmente negociadas.
O debate foi derrubado menos de uma hora antes do início. Em nota, a Globo disse que recebeu duas notificações que interferiam nas regras previamente acordadas e falou em “insegurança jurídica” e em “interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”.
A primeira decisão é da ministra Estela Aranha, do TSE, a pedido da coligação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ela invalidou o item da ata, assinada por todos os partidos, inclusive o PT, que previa púlpito vazio, com placa identificando o ausente, e a formulação, em 30 segundos, da pergunta que os presentes fariam ao candidato que não comparecesse.
Lula já havia avisado, na quarta-feira (30), que não iria e concederia entrevista ao Flow Podcast. A liminar proibiu o púlpito com o nome dele e as perguntas dirigidas a ele.
A segunda notificação veio do ministro Gilmar Mendes, do STF, em pedido do Solidariedade, e determinou a inclusão de Renan Santos (Missão), até então fora do debate. Antes disso, na terça-feira (29), o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alterou o entendimento da própria Corte sobre a contagem de parlamentares e garantiu a participação de Romeu Zema (Novo).
Pelas regras legais e pela portaria do TSE, o convite obrigatório em rádio e TV cabe a candidatos de partidos com ao menos cinco parlamentares no Congresso. Com esse critério, a Globo havia chamado Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Lula.
Zema entrou por decisão do presidente da Corte eleitoral, e Renan Santos, por ordem do STF na noite do programa. Flávio Bolsonaro desistiu depois da decisão de Aranha e atribuiu a saída ao que chamou de censura imposta pelo TSE.
Caiado, Cury e Zema já estavam na emissora quando o cancelamento foi anunciado. O episódio concentra, em poucas horas, três intervenções judiciais sobre formato, presença e tratamento do ausente, duas delas do TSE e uma do STF, em regras que as campanhas já tinham aceitado.
Para a Globo, a sucessão de decisões tornou inviável cumprir o que havia sido acertado com partidos e anunciantes. Para os cotistas, o que se comprou não era um intervalo qualquer da grade: era a associação a um dos principais eventos eleitorais da campanha, em horário que a própria emissora tirou da novela para entregar ao debate.
















