*Por Carlos Grilo
“Tudo é vaidade.” Matias Aires escreveu isso em 1752, mas poderia estar comentando o LinkedIn de hoje. A vaidade não é só pose. É impulso. É ela que nos leva a querer ser vistos, lembrados, admirados. É ela que move o artista, o inventor, o criativo. E é, também, o que alimenta a publicidade, essa indústria que vive entre a admiração e a vitrine. Querer reconhecimento é legítimo. As premiações importam. Ganhar Cannes, Clio, Effie ou El Ojo não é só vaidade decorativa, é argumento comercial, é vitrine de talento, é combustível para atrair clientes, bons profissionais e relevância. Prêmios, quando bem conquistados, geram valor. Valem dinheiro, reputação e um lugar à mesa. Não há problema em querer vencer. O problema começa quando esse desejo de vencer atropela o compromisso com a verdade.
O incômodo veio com o Grand Prix conquistado pela DM9, agora sob investigação em Cannes. Justamente no ano em que o Brasil foi celebrado como “Creative Country of The Year”. A suspeita: manipulação de dados, resultados inflados, uso não declarado de inteligência artificial. Tudo para montar um case mais sedutor que real. Ainda não há veredito. Mas a suspeita por si só, com toda sua repercussão, já acende o alerta. O que está em risco não é só um leão dourado. É a credibilidade do nosso ofício. É a linha, cada vez mais tênue, entre construir uma boa história e fabricar uma. Em sua obra, Matias Aires não condenava a vaidade. Ele a via como motor inevitável da experiência humana. Mas também alertava: sem freio, ela degenera. Sem critério, ela corrompe.
A vaidade pode ser impulso para criar algo brilhante. Mas também pode virar justificativa para trapacear, quando o que se quer não é fazer bem feito, mas apenas ser celebrado. A tecnologia não criou esse dilema. Ela só o expôs. A IA não é o problema. O problema é o uso que se faz dela para sustentar narrativas que soam bem… e terminam mal. Aqui, mais uma vez, vale lembrar de Matias Aires: “A vaidade é como a sombra, segue os homens e nunca se afasta deles”. Mas como toda sombra, ela depende da luz para existir. Se não houver luz na forma de ética, consistência e verdade, a vaidade não projeta nada. Só distorce o que toca.













