Durante anos, a direita foi dona absoluta do palco digital. Surfou nos memes, moldou o discurso direto, tomou para si os símbolos nacionais, impôs a pauta. A esquerda, presa a narrativas longas e ao discurso acadêmico, patinava para construir mensagens simples e mobilizadoras.
Acontece que a comunicação é viva.
Não basta conquistar o imaginário uma vez, é preciso manter a coerência, sustentar o enredo, atualizar os códigos. E foi justamente aí que a direita começou a tropeçar. A sequência de trapalhadas comunicacionais foi didática:
1. Trump construiu a imagem do outsider duro, negociador agressivo, que defenderia a América a qualquer custo. Mas quando sua Casa Branca mandou carta ao Brasil ameaçando taxar produtos em 50%, desmontou o roteiro do “grande aliado” e ofereceu de bandeja à esquerda o argumento de submissão.
2. Jair Bolsonaro errou ao não gerenciar a narrativa do alinhamento. Ao transformar a relação com Trump em espetáculo pessoal, ficou sem reação quando o parceiro americano demonstrou que não havia amizade, só interesse. O silêncio e a falta de framing estratégico abriram o flanco.
3. Eduardo Bolsonaro, que tentou se projetar como chanceler paralelo, multiplicou gafes diplomáticas e memes que corroeram o já frágil verniz de competência global. O excesso de protagonismo digital, sem profundidade de conteúdo e repleta de contradições, virou munição.
4. Flávio Bolsonaro, atolado em investigações, ampliou o desgaste e desviou o foco do governo para pautas defensivas, minando o “nós contra eles” e deixando o discurso anti-sistema sem força moral.
Nesse vácuo, a esquerda entendeu a oportunidade.
Reconfigurou o uso das cores nacionais, reapropriou o patriotismo como defesa da soberania nacional e do produtor brasileiro e remodelou narrativas. Não foi só astúcia política, foi competência de comunicação.
O case ilustra um ponto clássico do marketing: marca nenhuma vive só de recall ou de posicionamento passado. É preciso ter consistência. Quando a promessa não se sustenta na realidade, o concorrente não precisa fazer muito. A própria marca se sabota.
As redes sociais não têm mais dono.
Aquele ambiente que parecia naturalmente dominado pela direita, ancorado em frases curtas, humor agressivo e símbolos pátrios, ficou aberto ao contra-ataque justamente porque seus principais expoentes perderam a coerência narrativa.
No fim das contas, o que a carta americana fez foi expor uma contradição. E em comunicação, contradição não explicada é brecha fatal. Foi ali que a esquerda, tradicionalmente mais lenta na arena digital, se reorganizou e pegou de volta parte da narrativa, com o bônus de se permitir patriótica e popular.
No fim, não é quem tem razão. É quem sustenta a história de pé.













