Embora o câncer de mama permaneça entre os mais incidentes no Brasil, com estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) de 78 mil novos casos por ano até 2028, a busca por mamografias entre mulheres de 50 a 69 anos cresceu nos últimos anos. Dados de 2026 do Ministério da Saúde indicam que a parcela desse público que já havia feito o exame passou de 82,8%, em 2007, para 91,9%, em 2024. Para Fabiana Bertotti, maior especialista em oratória do Brasil atualmente, a forma de comunicar informações sobre a doença também pode contribuir para ampliar a adesão ao diagnóstico precoce e às medidas de prevenção, especialmente dentro das ações do Outubro Rosa.
“Porque informação disponível não significa, necessariamente, informação compreendida ou incorporada à vida. Durante o Outubro Rosa, vemos campanhas, dados, histórias e orientações circulando em grande volume. Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma informação e conseguir conversar sobre ela com naturalidade, responsabilidade e sensibilidade”, afirma Fabiana.
A diferença aparece principalmente quando o assunto chega às relações pessoais. Uma conversa entre familiares ou amigos pode envolver medo, dúvidas e constrangimento, o que exige mais do que simplesmente transmitir conteúdo. Para Fabiana, a comunicação precisa considerar quem recebe a mensagem e o contexto em que ela é apresentada.
“Eu penso muito na diferença entre dizer ‘é importante se cuidar’ e explicar concretamente o que esse cuidado significa, quais sinais merecem atenção e onde buscar orientação profissional. A segunda abordagem cria condições para que a pessoa transforme conhecimento em comportamento”, diz.
A escolha das palavras também interfere na abertura para o diálogo. Em vez de cobranças ou relatos capazes de provocar medo, a especialista defende que familiares e amigos comecem pela escuta e respeitem o momento de cada pessoa. Uma pergunta simples pode ser suficiente para saber se existe espaço para a abordgem.
“Uma conversa sobre saúde não precisa começar com uma avalanche de informações ou com histórias assustadoras. Pode começar com escuta. ‘Você quer conversar sobre isso?’ é uma pergunta simples que permite entender se existe abertura naquele momento”, afirma.

Evitar o medo
Outro cuidado é evitar o medo como principal estratégia de conscientização. Segundo Fabiana, histórias dramáticas podem chamar atenção, mas também gerar negação ou afastamento. Mensagens genéricas, excesso de termos técnicos e informações sem contexto também podem enfraquecer a confiança. “O primeiro é recorrer ao medo como principal ferramenta de convencimento. Histórias dramáticas podem chamar atenção, mas também podem provocar ansiedade, negação ou afastamento. Outro erro é simplificar demais um assunto complexo e transformar uma orientação de saúde em uma regra universal”, explica.
A comunicação também precisa reconhecer seus limites. Informar não significa substituir uma avaliação profissional, mas pode ajudar a pessoa a identificar dúvidas, buscar fontes confiáveis e entender quando procurar orientação especializada. O mesmo princípio pode ser levado para dentro das famílias, desde a infância, com conversas mais naturais sobre saúde e cuidado.
“Eu gostaria de ver mais conversas sobre saúde que façam parte da educação cotidiana, sem esperar que apareça uma campanha ou uma situação de doença para começar. Pais podem ensinar filhos a conhecer o próprio corpo, respeitar seus sinais, falar sobre mudanças e procurar ajuda quando algo preocupa”, afirma Fabiana, ressaltando que o Outubro Rosa amplia a circulação do tema, mas a comunicação sobre câncer de mama não precisa terminar com o fim da campanha. “O Outubro Rosa pode abrir essa conversa. O desafio é fazer com que ela continue existindo quando o mês terminar”, conclui.
















