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EU QUE ESCREVI O PROMPT

Por Redação Meio e Mídia22/09/2025 · 10:59

*Por Carlos Grilo

— Esse prompt tá uma merda.

Renato olhava fixamente para a tela. Dava um gole no café morno, voltava ao teclado, apertava as têmporas como quem tentava espremer uma grande ideia.

— Vai, sua praga, me surpreende… murmurou.

Enter: “Imagine que você é uma redatora premiada de uma grande agência londrina. Agora, crie um conceito original para uma campanha de lançamento de celular voltada para jovens urbanos, com pegada emocional, linguagem acessível e tom inspirador.”

A IA pensou por alguns segundos e retornou: “Conceito: CONECTADOS DE VERDADE. Porque as conexões mais importantes não estão na internet.”

Renato ficou em silêncio.

— Filha da… 

Olhou para o post-it colado na parede: “Idéia 3: Conexões reais no mundo digital (revisar depois).” Jogou o papel no lixo com raiva. Pegou o celular e mandou no grupo da agência: “Galera, temos um conceito aqui. Tô lapidando com calma.”

Mentira. A IA já tinha resolvido tudo. Mas ele precisava valorizar seu passe. Entregar adiantado e redondo nunca foi uma boa estratégia. 

Na agência, a IA era tratada como colaboradora sênior. Tinha até apelido: Dona Maria.

— “A Dona Maria resolve!”
— “Joga na Dona Maria e vê o que volta!”

Ninguém sabia quem programava Dona Maria. Só sabiam que ela era boa. Rápida. Nunca faltava e nem pedia aumento.  

— Renato, esse texto aqui… foi você que fez?
— Fui. Claro. 

Disse olhando a diretora de atendimento com ar blasé.

— Tá lindo. Emoção no ponto. Cliente adorou.

Renato sorriu de canto, mas ardeu por dentro. 

Começou a sabotar Dona Maria. Alterava os parâmetros, escrevia prompts mal formulados de propósito. “Escreva um roteiro como se fosse um cachorro triste.” “Crie um slogan para uma marca de gelo vegano.”  “Faça parecer ruim.”

Mas Dona Maria devolvia tudo com sagacidade: “Mesmo quando tudo derrete, você continua sendo você.” Renato fechava o notebook. Ia fumar. Voltava.

Em casa, tentou desabafar com a esposa:

— Eu sou o criativo e quem tá criando é uma máquina, amor.
— Amor… você cria o que a máquina te ajuda a criar. Você continua sendo o maestro.
— Maestro com partitura pronta, só se for. 

Ela deu de ombros e voltou pro Instagram.
Dona Maria teria dado uma resposta melhor, pensou.

Dias depois, no almoço da equipe, veio o anúncio:

— Galera! O filme da Dona Maria foi shortlist em Cannes!

— Como assim, da Dona Maria? 

Renato perguntou, quase engasgando com o nhoque.

— Ué, aquele que você aprovou e mandou pro cliente. Tá creditado como “em coautoria com IA Dona Maria”. É a primeira vez que isso rola! Inovador, velho.

Todos brindaram.
Renato fingiu brindar também.

— Inovador pra caralho, pensou.

No palco do Palais, Dona Maria ganhou uma estatueta. Sim, criaram uma projeção holográfica da IA só pra subir e agradecer.

Renato estava na plateia. Aplaudiu de pé, com os olhos úmidos. Alguém perguntou:

— Você que programou ela?

Renato sorriu cansado e respondeu:

— Não…  mas eu que escrevi o prompt.

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