*Por Carlos Grilo
Foi num daqueles encontros gostosos entre amigos. Vinho, petiscos, risadas e, claro, conversa fiada com pretensão intelectual.
Nick, que era fotógrafo, havia prometido mostrar uma seleção de imagens que andava produzindo nos metrôs pelo mundo. Retratos incríveis.
Gente em silêncio, em fuga, em cansaço, em espera. Sorrisos perdidos. Olhares que não pedem legenda. Luzes rasgando o subsolo. Idosos com olhos gastos, crianças encostadas em colo de mãe, estranhos em conexão silenciosa.
Poesia sem palavras.
A roda assistia com atenção. Todo mundo encantado. Até que, perto da última foto, alguém solta a pergunta maldita:
— Meu Deus, Nick, que lindo! Que câmera você usa?
Silêncio educado.
Nick sorriu. Respondeu com gentileza. Disse marca, modelo, lente, número da série e talvez até a cor da alça. Mas por dentro, claro, murchou.
É uma pergunta aparentemente inocente, quase elogiosa, mas que reduz o olhar à máquina. A sensibilidade ao equipamento.
O autor da pergunta era um chef de cozinha conhecido por seus pratos elaborados e pelas longas explicações sobre a origem de cada ingrediente.
A noite seguiu. Nick guardou a inquietação com a mesma delicadeza com que guarda negativos: sem pressa, mas com intenção.
Semanas depois, o convite chegou: jantar na casa do chef.
No cardápio, um prato tailandês primoroso. Ninguém sabia pronunciar metade dos ingredientes. Textura perfeita. Equilíbrio de sabores. A mesa aplaudia com os olhos.
Nick provou, elogiou com sinceridade e, no auge daquele silêncio reverente à primeira garfada, disparou:
— Que delícia, Paco. Que panelas você usa?
PS.: Essa crônica é uma homenagem ao meu saudoso amigo, mestre, parceiro de trabalho e companheiro de viagens, Nicolau El-moor. Não canso de repassar nossas conversas e histórias. Como você faz falta!












