Mais de 720 mil pessoas morrem todo ano por suicídio, que é hoje a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Entre 10% e 13% dos casos têm relação direta com fatores ligados ao ambiente de trabalho, de acordo com estudo publicado em 2024 no “American Journal of Industrial Medicine”.
Jornadas excessivas, assédio moral, sobrecarga de tarefas, isolamento social e ausência de autonomia figuram entre os principais ofensores da saúde mental no trabalho. Especialistas e gestores defendem que lideranças conscientes podem transformar o trabalho em fator de proteção à vida.
“Quando a empresa valoriza presença e disponibilidade acima de resultados significativos, ela cria um terreno fértil para a exaustão. Esse cenário, somado à falta de apoio e de segurança psicológica, pode intensificar sentimentos de desesperança e contribuir para o agravamento de problemas de saúde mental”, afirma Renata Rivetti (foto), especialista em ciência da felicidade e fundadora da Reconnect.
Uma pesquisa publicada no “ScienceDirect” em 2024 apontou que a sobrecarga de trabalho é fator relacionado ao suicídio: pessoas que trabalham 55 horas ou mais por semana têm 85% mais risco de desenvolverem ideação suicida do que as que trabalham de 35-40 horas. Outro estudo, publicado neste ano na “Nature”, mostra que funcionários que sofrem bullying ocasional têm risco 47% maior de ideação suicida, percentual que aumenta para 81% quando o assédio é frequente.
A liderança tem papel direto na redução desses riscos, explica Renata Rivetti. De acordo com a especialista, gestores que adotam uma postura mais humanizada (baseada em empatia, diálogo e respeito) conseguem transformar o trabalho em um fator de proteção, e não em gatilhos negativos. “Quando líderes constroem relações de confiança, oferecem autonomia e promovem pertencimento, eles criam um clima organizacional que favorece a saúde mental. O trabalho deixa de ser fonte de sofrimento e passa a oferecer sentido, propósito e conexão, que são elementos protetores contra o suicídio”, explica.
Thais Raya, diretora de Empreendedorismo Feminino da Abradi-SP (Associação Brasileira dos Agentes Digitais), concorda. Para ela, o líder deve sempre se perguntar ‘eu gostaria de trabalhar nesta empresa caso não fosse minha?’. “Seja por uma ótica emocional ou pragmática, cuidar da saúde mental da equipe sempre será uma decisão inteligente do líder. Pessoas satisfeitas, descansadas e reconhecidas blindam sua saúde mental. E entregam mais e melhor”, diz Thais, que é fundadora da Raya3 Propaganda.
Políticas organizacionais
Além da postura individual de líderes, políticas organizacionais claras são fundamentais. Entre as medidas positivas estão limitar a sobrecarga de reuniões, respeitar horários de descanso, combater práticas abusivas e incentivar redes de apoio internas. Estudos da Gartner, Gallup e Harvard Business Review indicam que empresas que oferecem segurança psicológica têm equipes mais engajadas e menores índices de rotatividade.
O Instituto MOL é um exemplo positivo: é a primeira ONG do Brasil a adotar de forma permanente a semana de 4 dias, inspirada no modelo da MOL Impacto. Entre os resultados, 86% da equipe relatou melhora na saúde mental, e a satisfação com a empresa cresceu para 84%.
“Colocar a saúde mental no centro da cultura organizacional exige mais do que benefícios pontuais”, afirma Roberta Faria, cofundadora e CEO da MOL Impacto. “Passa por escuta ativa, acolhimento e segurança psicológica como estratégia de liderança. Iniciativas inovadoras podem equilibrar vida pessoal e profissional, mas é o olhar atento da gestão que garante ambientes menos tóxicos e mais colaborativos.”
No contexto do Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, a conclusão é clara, afirma Renata. “A prevenção ao suicídio não é apenas responsabilidade individual. Ambientes de trabalho mais saudáveis e lideranças conscientes são aliados fundamentais para reduzir fatores de risco e transformar o espaço corporativo em lugar de cuidado e proteção à vida.”












