Brasília, 04 de Fevereiro de 2026 - 19:56

A GERAÇÃO QUE QUER APRENDER E O PAÍS QUE AINDA NÃO APRENDEU A ENSINÁ-LA

A GERAÇÃO QUE QUER APRENDER E O PAÍS QUE AINDA NÃO APRENDEU A ENSINÁ-LA

Por Mariana Achutti

Uma das maiores distorções do debate sobre juventude e trabalho no Brasil é a ideia de que os jovens “não querem nada”. A nova pesquisa do SESI/SENAI mostra exatamente o oposto. Segundo o estudo, 43% dos jovens apontam a falta de formação como o principal obstáculo para conseguir emprego e, ainda assim, 88% afirmam que fariam um curso técnico, uma graduação profissionalizante ou uma microcertificação se tivessem acesso gratuito. O problema é que 58% não sabem onde encontrar esses cursos. Não é falta de interesse, é falta de caminho. 

Quando um país tem jovens desejando aprender, mas sem saber por onde começar, não estamos diante de uma geração desmotivada, e sim de um sistema desarranjado. E isso se conecta a um fenômeno global: a crise de aprendizagem. Falamos muito da geração Z, mas a verdade é que todas as gerações estão atravessando a mesma transição; tecnológica, emocional e cultural. É o que chamo de Geração T, a geração da transição, formada por pessoas de todas as idades tentando desenvolver competências para um futuro que muda mais rápido do que conseguimos acompanhar. 

Nesse cenário, o papel das empresas se torna ainda mais central: não se trata apenas de oferecer treinamentos pontuais, mas de assumir a responsabilidade de serem espaços contínuos de aprendizagem, as chamadas empresas-escola. Uma empresa-escola forma talentos em vez de esperar que eles cheguem prontos, integra desenvolvimento técnico e humano, combate a epidemia de solidão que atravessa o ambiente corporativo, cria lideranças que dão clareza e apoio, e impulsiona produtividade não pela pressão, mas pela evolução constante. 

O estudo também revela que metade dos jovens trocaria de emprego por baixa remuneração e que quase um terço o faria por estresse, o que indica uma juventude pressionada financeiramente e emocionalmente, não desinteressada. Ao mesmo tempo, 75% acreditam que a inteligência artificial aumenta produtividade e 68% enxergam as habilidades digitais como essenciais para suas áreas de atuação. Ou seja, eles não resistem ao futuro, eles querem fazer parte dele. Mas para isso precisam de portas abertas. 

O Brasil tem diante de si uma oportunidade histórica: transformar o desejo de aprender dessa geração na base de um novo ciclo de desenvolvimento. Isso exige políticas públicas mais claras, acesso facilitado à formação e empresas que assumam de fato seu papel no preparo das pessoas. Caso contrário, não perderemos apenas uma geração, perderemos nosso próprio futuro.

Mariana Achutti, CEO da Newnew, é uma das principais referências em educação corporativa no Brasil. Também fundou a Sputnik e foi sócia da Perestroika. Em sua jornada de mais de 15 anos, contribuiu para transformar o universo corporativo através da educação criativa e disruptiva em empresas como Google, Facebook, Globo, O Boticário, Ambev, entre outras.

Ela recebeu o selo Top Voices no LinkedIn e recentemente desenvolveu uma metodologia centrada no aluno e voltada para criar experiências de ensino customizadas dentro de outras organizações.

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