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BETS NO AMBIENTE CORPORATIVO: QUANDO A COMPULSÃO INVADE O TRABALHO

Por Redação Meio e Mídia09/06/2026 · 20:11

As notificações não param. No meio do expediente, o celular vibra com promessas de ganhos rápidos. O que parecia entretenimento tornou-se, para muitos profissionais, um problema silencioso que atravessa o dia de trabalho, afeta a concentração e compromete resultados.

A expansão das apostas online no Brasil já extrapola o ambiente digital e chega às empresas com força, gerando preocupação na diretoria das corporações. As agências de publicidade e marketing estão entre as companhias atingidas.

A ludopatia ou jogo patológico, um transtorno reconhecido pela OMS e pelo DSM-5, manifesta-se pela compulsão mesmo diante de prejuízos evidentes. Trabalhadores endividados, ansiosos e desconcentrados integram hoje a rotina de muitos departamentos de RH. Em vez de identificar sofrimento psíquico, empresas não raramente respondem com isolamento ou demissão.

A advogada previdenciária e trabalhista Priscila Arraes Reino, com mais de 25 anos de experiência, emite um alerta. “O ambiente corporativo ainda não sabe lidar com esse adoecimento”, diz.

Segundo ela, a Súmula 443 do TST permite presumir discriminação quando a dispensa ocorre após conhecimento da condição de saúde estigmatizante, abrindo caminho para reintegração ou indenizações.

O custo social é alto. Famílias desestruturadas, afastamentos médicos, perda de produtividade e até pessoas que tiram a própria vida superam, em muito, a arrecadação tributária gerada pelo setor. O que começou como promessa de diversão e receita fácil para o Estado revela-se um problema de saúde pública e de gestão de pessoas.

Com o início da Copa do Mundo nesta semana, o volume de apostas tende a crescer exponencialmente. O evento global, o primeiro após a regulamentação das bets no Brasil, representa uma janela de estímulo intenso ao consumo impulsivo, especialmente entre o público masculino jovem que compõe grande parte das forças de trabalho.

Nas últimas semanas, o debate ganhou força com a campanha “Dê Block no Tigrinho”, lançada pelo movimento 342 Artes. Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Paulinho da Viola, Marieta Severo, Emicida e Camila Pitanga, entre outros, gravaram vídeos pedindo que influenciadores e personalidades bloqueiem a promoção de apostas.

O questionamento central é direto: “De que lado da influência você está?”. Para o mercado de marketing e publicidade, o momento exige reflexão estratégica. A autorregulação, a revisão de critérios de veiculação e a responsabilidade social das agências e veículos ganham relevância.

Ignorar o impacto nas famílias e na força de trabalho pode custar reputação e confiança a longo prazo.

O fenômeno das bets deixou de ser apenas um tema de entretenimento ou regulação. Tornou-se questão corporativa, de saúde mental e de ética publicitária. As empresas e o mercado de comunicação precisam agir, sob pena de que o custo humano e organizacional se torne desproporcional, quiçá irreversível.

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