Nos Estados Unidos, um CEO tomou, na mão grande, o boné que um jogador havia dado para uma criança. As imagens circulam pela rede mundo afora. Flagrado, ele não pede desculpas. Apenas justifica: “A vida é assim.”
Um governador brasileiro, logo o da minha terra, comparou moradores de rua a carros estacionados irregularmente. Diz que, como se guincha um carro que atrapalha o comércio, deve-se “remover” quem dorme nas calçadas.
Comportamentos devidamente amparados em credos duvidosos:
— O mundo é dos espertos.
— Cada um por si.
— Farinha pouca, meu pirão primeiro.
— Quem não quer ser passado para trás, aprende a passar primeiro.
É a cultura da performance.
A teologia do lucro.
A cartilha do winner.
Caminhamos para um lugar onde crueldade é sinônimo de realismo. Onde quem denuncia a barbárie é chamado de ingênuo e quem comete se orgulha da própria esperteza. O filósofo esloveno Slavoj Žižek resumiu bem essa toada: “Hoje, o verdadeiro cinismo não é esconder o mal, mas assumi-lo com orgulho.”
No marketing, na política e no cotidiano, cresce a romantização da força bruta, do “vencedor nato”, daquele que não pede licença, não pede desculpa e não se importa.
Essa lógica, travestida de pragmatismo, tem nome: desumanização.
O culto ao resultado virou desculpa para tudo. Para demitir em massa, por email ou whatsapp, sem olhar nos olhos. Para trucidar reputações com um tweet. Para desrespeitar quem não tem o que oferecer em troca. Para julgar quem sofre, quem perde, quem sente.
A ideia de “meritocracia”, tão repetida, tornou-se uma armadilha para justificar desigualdades estruturais. É a mesma ideia por trás de quem diz que o morador de rua “escolheu” estar ali. Ou que a criança, no estádio, precisava “aprender desde cedo” como o mundo funciona.
O mercado aplaude quem sobe rápido. Mesmo que pisando em alguém no caminho. Em nome da eficiência, da inteligência emocional e da liderança “assertiva”, estamos construindo um ideal de profissional e de pessoa que, ao errar, terceiriza a culpa. Ao atropelar pessoas e processos, justifica com KPI. Ao vencer, acredita que merece tudo. Até o boné de uma criança.
Há algo de doente nessa mentalidade.
De insustentável.
A empatia, que hoje parece luxo, é estrutura. E quando falta, o castelo do winner implode de dentro. É só uma questão de tempo. Com o avanço insano da IA e da automação, a eficiência virou fetiche. Mas sem empatia, até o algoritmo mais sofisticado só reproduz a frieza dos que o treinam. Precisamos cuidar para que, na pressa de sermos eficientes, deixemos de ser humanos.
Freud explica: “A civilização é uma pele fina. Quando você arranha, o que aparece por baixo é o selvagem.”
A comunicação precisa parar de romantizar a frieza e voltar a exaltar o vínculo. As marcas, os líderes e os criadores de conteúdo precisam lembrar que “a vida é assim” não é desculpa para tudo.
É o começo de tudo que precisa mudar.




