Por décadas, assistir ao futebol na TV aberta praticamente significava uma coisa: Globo. Narração do Galvão Bueno, com bordões como “Bemmmm, amigos da Rede Globo”, “Acaboooooooouuuuu, é pennntaaa”.
A liderança era tão consolidada que parecia algo inquestionável. Mas o século 21 vem para nos provar que o mundo está cada vez mais FLUX: acrônimo corporativo e sociológico que define o cenário atual de incertezas contínuas, Fast (Rápido), Liquid (Líquido/Adaptável), Unknown/Uncharted (Desconhecido/Inexplorado) e eXperimental (Focado em testes e inovação).
E a Cazé TV compreendeu a dinâmica desse cenário. Há um pouco mais de quatro anos, desde a última Copa em 2022, acompanhamos o jogo mudar. A Globo abriu mão na época do Direito de Transmissão da Copa via internet, o que possibilitou que os sócios da CazéTV negociassem com a FIFA um novo formato de transmissão dos jogos: mais próximo, menos formal, nos moldes que a internet carecia e que o consumidor queria consumir e experenciar.
Hoje, temos três movimentos muito interessantes acontecendo ao mesmo tempo: a CazéTV transmitindo todos os jogos e consolidando um novo modelo de mídia esportiva; o SBT surpreendendo em audiência e tendo a voz nostálgica de Galvão Bueno em sua transmissão; e a Globo transmitindo menos partidas, mas ainda sustentando vantagens competitivas importantes, tanto que, no território nacional, a emissora, de acordo com a Revista Lance, alcançou 32 pontos de audiência, o maior índice da faixa horária (bola rolando de 19h04 às 21h05) em sete anos, e mais de metade dos domicílios com aparelhos ligados estavam sintonizados na emissora carioca.
A situação da CazéTV me chama particularmente atenção. No começo, uma das maiores críticas do público para exibição de todos os jogos da Copa do Mundo era clara: “resenha demais, seriedade de menos”. Muita gente tinha receio de assistir aos jogos por achar que a transmissão seria “bagunçada” demais, descolada demais. Contudo, o que eles fizeram foi inteligente. Em vez de abandonar sua identidade digital, eles a refinaram.
Durante o jogo, a narração ficou mais técnica, tática e próxima do padrão que o torcedor tradicional espera, sem perder sua humanidade e proximidade com o público e essência ao mostrar a reação dos narradores ao vivo, comentaristas de pijama na madrugada, expressões genuínas e improviso.
Nos intervalos, no pré-jogo e no pós, entram os quadros “resenheiros”, o humor, a espontaneidade e a linguagem nativa da internet. Isso é muito poderoso. Nota-se que a CazéTV encontrou algo raro: o equilíbrio entre o lúdico e o tradicional.
O canal conseguiu manter a proximidade da creator economy sem abrir mão da credibilidade que a transmissão esportiva exige. Resultado: conseguiu bater o recorde histórico desde a criação do projeto esportivo, além de ter se consolidado como a maior live esportiva de um canal no Youtube. A partida comandada por Luis Felipe Freitas conseguiu o pico de 12 milhões de aparelhos conectados.
Já o SBT apostou na nostalgia, algo emocionalmente fortíssimo. Trazer Galvão Bueno foi uma jogada brilhante. Existem gerações inteiras cuja memória afetiva do futebol foi construída ouvindo sua voz. E isso tem valor de marca. Muito valor.
O SBT, inclusive, performou melhor do que muita gente imaginava. A emissora obteve 8 pontos de média de audiência, com picos de 11 pontos, resultado mais alto no ano.
Agora, falando da Globo… Ela ainda possui diferenciais claros: menor latência (transmissão mais rápida); melhor qualidade de imagem; melhores posições de câmera no estádio; e infraestrutura gigantesca.
Contudo, ouvi relatos de pessoas fazendo algo impensável em um passado não tão distante: ligaram a imagem na Globo em uma TV e o áudio no SBT para ouvir Galvão, em outro aparelho. Olha o nível da fragmentação do consumo. Isso diz muito sobre o momento atual em que o consumidor não quer mais aceitar um pacote fechado, prefere montar sua própria experiência.
E isso nos leva à pergunta que não sai da minha cabeça: até quando a Globo sustentará seu diferencial apenas pela superioridade técnica? Porque seus concorrentes estão investindo pesado e tecnologia é uma vantagem cada vez menos defensável no longo prazo.
Minha provocação final vai para a ge tv, criada pela Globo para competir diretamente com a CazéTV no Youtube, depois de perderem a oportunidade que tinham em suas mãos no começo da década de 2020: será que a ge tv já entendeu de verdade a lógica da internet ou ainda vemos um certo “cosplay de descolado”? Afinal, a audiência digital não se conquista apenas com cortes rápidos, memes e linguagem informal. Ela exige autenticidade, carisma, comunidade e presença real, elementos mais difíceis de serem copiados.
A internet detecta performance e rejeita o que parece forçado. No fim, talvez essa revolução nem seja sobre TV versus streaming. É sobre algo maior, transmissão versus experiência, audiência versus comunidade e alcance versus conexão.
E, como em todo mercado, quem vencerá não será necessariamente o maior. Será quem melhor entender o novo consumidor. E você, hoje, se pudesse escolher, assistiria a um jogo com a transmissão da Globo, do SBT ou da CazéTV? Por quê?
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