A expansão de data centers para inteligência artificial, que mobiliza trilhões de dólares no mundo inteiro, enfrenta resistência crescente da opinião pública e, sobretudo, de eleitores. Nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na última terça-feira, dia 3 de novembro, eleitores rejeitaram ou restringiram projetos em dezenas de municípios de dez estados americanos.
Pelo menos 38 de 41 medidas locais sobre o tema resultaram em veto ou limitações, mandando um recado que atravessa linhas partidárias e já repercute em mercados e na estratégia das empresas de tecnologia.
Pesquisas de boca de urna, como a da NBC News, mostram que 57% dos eleitores acreditam que a IA fará mais mal do que bem à sociedade e que 76% se opõem à construção de data centers em suas comunidades. Uma pesquisa Gallup de março registrou 71% de oposição a instalações locais. O tema une preocupações com contas de energia mais altas, uso intensivo de água, ruído, poluição e baixa geração de empregos.
No encontro Future of AI (Futuro da IA), do Financial Times, realizado nesta quinta-feira, 05 de novembro, em Londres, executivos admitiram que o próprio setor contribuiu para a hostilidade. O codiretor executivo da Prometheus, Vik Bajaj, diz que a reação não se explica apenas por resistência à tecnologia.
“Como categoria profissional, passamos dois anos dizendo às pessoas, de maneira bastante irresponsável, que a IA mudaria o futuro do trabalho para pior, que elas perderiam o emprego, que seus filhos perderiam o emprego, que seus netos viveriam em um mundo irreconhecível. E, no último ano, também estivemos flertando com a ideia de que se trata de uma crise existencial”, afirma Bajaj.
O fundador da Niantic Spatial, John Hanke, reconhece que o ritmo de construção foi acelerado demais. “E parte disso foi feito com a cabeça enterrada na areia”, diz.
A ex-chefe de políticas globais da DeepMind e diretora do Projeto de IA e Geopolítica da Universidade de Cambridge, Verity Harding, observa que os data centers se tornaram o alvo concreto de ansiedades mais amplas sobre a tecnologia. “De certa forma, só podemos culpar a nós mesmos”, afirma.
Os impactos locais são concretos. Data centers de grande porte consomem energia equivalente à de dezenas de milhares de residências e exigem volumes significativos de água para resfriamento.
No primeiro trimestre de 2026, ao menos 75 projetos avaliados em cerca de US$ 130 bilhões foram bloqueados ou atrasados por oposição comunitária, segundo o Data Center Watch. Em 2025 e 2026, o volume acumulado de empreendimentos afetados chega a centenas de bilhões de dólares.
A resistência não se limita aos Estados Unidos. Há protestos na Índia, no Japão e na Europa. No Brasil, o Ministério Público e a Defensoria Pública pedem a paralisação de obras em Pecém (CE), voltadas ao TikTok, até que haja consulta à comunidade indígena e estudo de impacto ambiental.
Há ações semelhantes envolvendo projetos em Belém do Pará e Campinas, além de questionamentos sobre o uso de água no Espírito Santo. O setor brasileiro ainda é pequeno em capacidade global, mas cresceu rapidamente. Gargalos de energia já reduziram a carteira de projetos viáveis, segundo análise da Rystad Energy, de cerca de 21 GW para aproximadamente 7 GW.
No Brasil, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) condiciona incentivos à eficiência hídrica e a energia renovável ou de baixa emissão, mas o acesso à rede permanece o principal entrave.
As empresas respondem com mudanças. Nos Estados Unidos, OpenAI, Amazon e Microsoft anunciaram o fim de acordos de confidencialidade controversos. Mais de 200 companhias aderiram a um compromisso não vinculante da gestão Trump para que custos de eletricidade dos data centers não sejam repassados aos consumidores.
O chefe da divisão de novas energias da Chevron, Jeff Gustavson, afirma que o relacionamento com as comunidades decide o sucesso dos projetos. “Se você não consegue administrar esse relacionamento, se as comunidades não se beneficiam desses investimentos, você enfrentará oposição”, diz Gustavson.
O diretor-executivo da britânica Virtus Data Centres, Adam Eaton, diz que a visibilidade aumentou com a IA e que o setor precisa informar melhor as comunidades.
A expansão continua necessária para atender à demanda por modelos e serviços de IA, mas o resultado das urnas e das mobilizações locais indica que o ritmo e as condições dependerão cada vez mais da capacidade de demonstrar benefícios concretos e reduzir impactos sobre energia, água e vizinhança.
– Com informações de agências internacionais e do UOL/Folha de S. Paulo.
















