A indústria da comunicação brasileira é majoritariamente feminina, mas a diversidade é menor à medida que os profissionais avançam na hierarquia. Mulheres representam 64% dos profissionais que não ocupam cargos de liderança e 70% da gerência, mas apenas 46% do C-level, como são chamados os cargos do mais alto escalão.
A desigualdade é mais acentuada no recorte racial: pessoas negras correspondem a 38% dos “não líderes”, 22% da gerência, 16% da diretoria e somente 9% dos principais cargos executivos.
Os dados fazem parte da terceira edição do Censo da Diversidade na Indústria da Comunicação, divulgada nesta semana pelo Observatório da Diversidade na Comunicação (ODC). Realizado em parceria com o Instituto Quantas, o levantamento ouviu 2.908 profissionais entre 1º de julho e 8 de setembro de 2026.
Os segmentos abordados incluem agências de publicidade e influência, assessorias de imprensa, empresas de mídia exterior, marketing promocional, comunicação interna e produtoras de conteúdo e audiovisual. As respostas foram anônimas e diretas, sem intermediação do RH, em 16 estados de todas as regiões. São Paulo concentrou 72% das respostas.
O setor ainda não reflete a composição da população brasileira. Pessoas negras representam 31% dos profissionais da comunicação, ante 56% da população. Outro dado mostra que 30% dos entrevistados se declaram gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais ou de outra orientação não heterossexual.
Apesar das desigualdades, 94% dos profissionais consideram a diversidade e inclusão relevantes para o sucesso das empresas. Para 76%, a indústria avançou no tema nos últimos anos, mas apenas 25% avaliam que os avanços foram significativos.
Já entre os principais desafios, 25% apontaram o aumento da representatividade em cargos de liderança e 24% citaram a garantia de oportunidades de crescimento profissional. Ampliar a diversidade nas contratações aparece em último lugar, com 8% das respostas.
A diretora executiva do Sindicato das Agências de Propaganda do Estado de São Paulo (Sinapro-SP) e presidente do Observatório da Diversidade da Comunicação, Patrícia Alexandre, diz que a falta de coragem para encarar a questão é um dos maiores problemas, especialmente no C-level.
“Existe muita gente com boa intenção. Os processos seletivos inclusivos existem, mas as empresas contratam e não conseguem manter essas pessoas”, diz Patrícia. “Elas não são bem recebidas, engajadas, ouvidas ou acolhidas. Com o passar do tempo, vão embora.”
Patrícia destaca que falta estrutura, acessibilidade e oportunidade de crescimento. “As pessoas tendem a puxar seus iguais. Para mudar isso, é preciso colocar pessoas diferentes na liderança, porque são elas que vão abrir espaço para outras pessoas diferentes”, diz.
Segundo a executiva, a diversidade deixa de ser discurso quando entra na avaliação e na remuneração da liderança. “Não adianta deixar toda a responsabilidade no RH: quem decide quem será contratado é o gestor da área. Quando a diversidade entra no bônus dos executivos, a mudança acontece de cima para baixo e começa a se transformar em cultura”, afirma Patrícia.
– Com informações do UOL Economia.
Imagem: Gerry Images/iStock
















